levando outro ghosting no meio da cara

Bernardo Batista. 2015.
Bernardo Batista. 2015.

Como sempre, tenho paquerado alguns caras, alguns vários. Mês passado tinha dois cariocas que me beijavam e faziam sexo comigo, e os dois pararam de falar comigo um belo dia. Só esse ano já foram três situações assim, não exatamente iguais, mas as variações não mudam o que há em comum entre elas. Lembro quando, dez anos atrás, ainda vivendo em São Paulo, arranjei um namoradinho de verão aqui no Rio. Eu tinha 21 anos na época e fiquei perdidamente apaixonado, na falta de uma expressão mais clichê rs. Guilherme, um amigo da fotografia que era de Niterói, falou comigo numa boa: “cuidado, carioca tem uma coisa de prometer demais e não cumprir.” O tal namoradinho de verão me deu um bolo no dia em que iríamos juntos num show. Eu tinha vindo pra cidade pra vê-lo no aniversário dele e dei o ingresso de presente. Ele nunca mais falou comigo (onde “nunca mais” é 2010, quando ele ressurgiu das cinzas me pedindo desculpas e eu alegremente aceitei – sem ironia). Esses dias eu me lembrei de todos esses casos, e da minha amiga Marina. Marina também estuda(va) aqui em Niterói, ela é de São Paulo. Anos atrás ela estava falando “esses cariocas, eles dão a maior bola, ficam no maior amorzinho, e de repente somem.” Ela falava de vários caras que paqueraram ela e parecia haver sentimentos, mas eles sempre sumiam sem mais nem menos. É louco compreender, dez anos depois, o aviso que meu amigo da fotografia deu. Acho que há uma tendência nos homens daqui em se entregarem bem menos do que dão a entender. Não faz mal. Já vislumbro trocar de cidade. (e acabo de me dar conta que Marina e Guilherme trocaram rs)

Comandante Cohen, ele era nosso espião mais importante

Leonard Cohen no bar

Leonard Cohen datilografando

Eis que, dias atrás, após 82 anos, passou Leonard Cohen. Nunca me esqueci de quando senti pela primeira vez o trovão subterrâneo de sua voz na sequência inicial de Assassinos por Natureza, de Oliver Stone. Tive a boa fortuna de vê-lo ao vivo no final de 2012. Que vida luminosa, e que longe chegou! Chegou até mim, meu pai, minhas irmãs, vários amigos e amigas meus. Sua música e suas palavras chegaram a lugares como

Jesus era um marinheiro caminhando sobre a água
E ele passava um longo tempo observando do alto de sua torre de madeira
(tradução livre de Suzanne)

e

Te amei quando te abriste como um lírio no calor
Veja, é que eu sou apenas um boneco de neve, parado em pé debaixo da chuva e do granizo,
Que te amou com seu amor congelado, seu físico de segunda mão,
Com tudo que ele é e tudo que ele foi,
A mil beijos de profundidade
(tradução livre de A Thousand Kisses Deep)

Se você tem ouvido e gosta de palavras, recomendo com força esse poeta.

Kit saudade

2 de novembro, dia de finados. Milhares, centenas de milhares de pessoas indo ao cemitério do Caju, o maior do Rio de Janeiro. Debaixo daquele SOL implacável, no meio do fedor daquela avenida, debaixo dos viadutos gigantes que dão acesso à ponte Rio/Niterói, o barulho de ônibus que tem na zona portuária. Um milhão de pessoas visitando os cemitérios de toda a cidade, conforme previsto pela Reviver, administradora de sete cemitérios municipais. Missas são realizadas de hora em hora.

Na televisão, falaram da distribuição de um kit anti-saudade – um coração de borracha onde se lê: “Quando a saudade apertar, aperte aqui.” Deveria se chamar simplesmente “kit saudade”.